quinta-feira, 5 de abril de 2018

Nazareth Peres - Poesia do dia a dia: Sagrada Família

Nazareth Peres - Poesia do dia a dia: Sagrada Família: SAGRADA FAMÍLIA Seu Pedro chegou um dia para ela e simplesmente lhe falou: “Vamos nos casar? Você é sozinha e eu também. Podemos fazer...

Sagrada Família

SAGRADA FAMÍLIA Seu Pedro chegou um dia para ela e simplesmente lhe falou: “Vamos nos casar? Você é sozinha e eu também. Podemos fazer a vida juntos”. Ajustaram o casamento para dali uns dois meses. Não houve grandes formalidades, nem se falou de amor. E eles se tornaram um casal improvável. Seu Pedro era um italiano, vivia só, sem nenhum parente ao que se soubesse. Era um senhor já de meia idade, cabelos brancos, pele clara, olhos azuis. Ela era a Maria, uma roceira lá das Gerais, matuta, analfabeta, meio doentia, que vivia na casa do pai e da madrasta, tocando os serviços caseiros. Pedro mascateava miudezas que transportava em grande mala pelo sertão afora. Passava de vez em quando por onde Maria morava, e observou que ela era boa pessoa, prestativa e que poderia se tornar também uma boa esposa. Casaram-se e resolveram morar na cidade grande, onde haveria mais recursos para Maria poder se tratar da doença instalada na infância e que não merecera do pai, nenhuma espécie de atendimento médico. Assim fizeram. Os dois mascateavam juntos, e alugaram uma pequena casa num novo bairro, longe de tudo, mas que podiam manter. Não demorou muito tempo e nasceu sua única filha. Ficaram felizes. Maria, com todas as dificuldades da vida pobre sim, mas não miserável, cuidava da filha, da casa, do marido, ajudando-o também nas vendas. Agora saiam juntos pelos bairros da cidade grande vendendo sua mercadoria. Como naqueles tempos não havia lojas, feiras livres ou outro comércio apropriado em grande parte da cidade, eles eram sempre bem vindos quando batiam às portas oferecendo seus produtos. Maria trouxe com ela a tradição da educação severa. Ela contava às crianças da vizinhança amiga, como o pai e a madrasta a castigavam, lhe batendo muito. Assim, ela procurava educar a filha, com dureza, literalmente, a chicoteava às vezes. Esse era o seu conceito de educação. Era severa, e a filha lhe tinha muito medo. Dona Maria gostava de contar à noite quando as crianças se reuniam, histórias da sua infância triste e de assombrações que produziam pavor a elas, mas que ouviam maravilhadas, com direito a arrepios e pesadelos noturnos. Esse casal tinha suas qualidades. Marido e mulher procuravam ajudar como podiam seus vizinhos amigos, a ponto de certa vez, dividir uma sala, subalugando o espaço para atender às necessidades de moradia de um casal e duas filhas. Esse casal que foi ajudado conseguiu depois comprar um terreno e construir aos poucos sua casa. Nos fundos do terreno foram construídos um quarto e cozinha, onde se alojou a família que um dia atendeu as necessidades dos vizinhos. A filha de Pedro e Maria era uma bela menina de lindos cabelos encaracolados, que a mãe penteava em grossos cachos ou em tranças caprichadas, tendo sempre uma fita cor de rosa para arrematar os penteados. A menina era amiguinha dos vizinhos. Brincavam todos juntos, no grande terreno, de casinha, de pular corda, de balanço que os pais das crianças haviam feito no quintal. A menina começou a pedir à mãe que cortasse seus lindos cabelos, para que ela ficasse igual às amigas que tinham os cabelos lisos bem curtos, com franjinha. Não poderia imaginar que as meninas de cabelos lisos, adorariam ter os seus cabelos tão crespos e longos como os dela. Tanto ela pediu que um dia, a mãe com raiva, fez-lhe a vontade. Juntou as duas tranças no pé da cama e as cortou com uma faca. E ela ficou linda e feliz, quase igual às amigas. Seu Pedro e Dona Maria, iam à cidade de vez em quando para abastecerem suas malas com as mercadorias que vendiam. Era uma festa quando chegavam e deixavam todas as crianças ficarem por perto olhando a arrumação do pequeno tesouro. Tinha de tudo um pouco: Havia os “olhos de cabra”- umas sementes que serviam de amuletos, agulhas, alfinetes, botões, colchetes, elásticos, fitas, linhas e rendas de todas as cores. Faziam também, parte dessas malas, os espelhinhos, latinhas de “pó de arroz” da marca “Lady”, em seus recipientes azuis, redondos, e com uma bonita moça nas tampas coloridas. Não se sabia pronunciar o nome do produto corretamente. Falava-se “ladí”. Havia os vidrinhos de óleo perfumado “Dirce” para os cabelos, como se usava naqueles tempos. Os sabonetes e naftalinas completavam o estoque. Por uns dias, o casal saía a mascatear como se dizia na época. Um dia o pai da menina sofreu um acidente caseiro. Caiu no quintal, ficando de cama por longos meses num sofrimento que as crianças percebiam pelas conversas sussurradas e nas visitas que lhe faziam. Era um sofrimento silencioso. Dona Maria buscava os recursos que podia alcançar; dava-lhe remédios homeopáticos que lhe indicavam. Um dia ele pediu à filha que lhe providenciasse uma corda. Ela falou à mãe que impediu o ato extremo que ele pretendia consumar. Após longo tempo, ele faleceu. À boca pequena, as crianças também souberam do que se passava. Dona Maria, para não desperdiçar os remédios do marido, tomou-os todos. Como sempre as crianças ficaram sabendo também desse fato estranho. Dona Maria ficou só com a filha, que nessa ocasião já dava sinais de que também estava doente. A mãe procurou recursos hospitalares. Dizia-se que era problema do coração. A menina foi crescendo, assim como suas amigas. Tornou-se uma mocinha frágil mas muito amável e era querida por todos. Frequentava a escola e a igreja sempre que possível, no intervalo de suas incontáveis internações. Aos dezessete anos ela faleceu, tornando-se a primeira grande perda das suas amigas. No momento da mãe arrumar os guardados da filha, chamou uma de suas amigas para ajudá-la nesse doloroso afazer. Dona Maria continuava analfabeta como sempre foi, mas tinha sensibilidade dentro das suas limitações e pediu à amiga que lesse para ela o que a filha tinha registrado numa caderneta. Eram os seus pensamentos mais íntimos, sua mostra de fé, suas dores, sua esperança, bem como algumas orações e cânticos que ela apreciava. Quando a amiga terminou a leitura, o sino da igreja que era perto, soou a badalada de meia hora. Dona Maria falou resignada: “Jesus confirmou!” Deu à amiga da filha essa caderneta como lembrança. Nos dias seguintes, desfez-se de seus pertences, procurou um asilo, assim ela falava, e lá se internou para viver seus dias, onde poderia ainda ser útil a alguém que lhe fizesse também companhia, encerrando a história de sua pequena família. Um exemplo de amor familiar, dentro da simplicidade e da honestidade que passou aos que conviveram com essas três pessoas que a compunham. E não se soube mais da Dona Maria. Eram os anos 40, na Vila Formosa. Meus pais subalugaram um cômodo do casal Sr. Pedro Veroneze e Maria Veroneze. Sua filha, Ada Veroneze era nossa amiga de infância e adolescência. Foi Filha de Maria e cantava no coro paroquial do Santuário de Vila Formosa. Muito doentia, faleceu aos 17 anos em 1957. Foi sepultada no Cemitério de Vila Formosa. Naqueles dias, os cortejos fúnebres eram a pé. O da Ada saiu da minha casa na Avenida Monte Magno, perto da rua Fábio. Fomos a pé pelas Avenidas, Montemagno, Renata, praça Dr.Sampaio Vidal, Ruas Filha de NSS Coração, Padre Júlio Chevalier (antiga rua 69 onde moramos) Cabinari, travessia da Avenida Trumain, Av. Flor de Vila Formosa. Um longo tempo e longo cortejo. O organista do coro paroquial, Adacyr Ferrari, ensaiou durante uma semana a missa de Réquiem que cantamos em latim, na missa de Sétimo dia da amiga Ada Veroneze. LEMBRANÇAS DA VILA FORMOSA DE ANTES. Saudade!

quinta-feira, 27 de julho de 2017

O Estranho

                                               
                                                           O ESTRANHO
                                                                                 
Um pouco de ficção porque a realidade às vezes é muito dura.

            Voltando do trabalho, saí do metrô às dezoito e trinta. Subi a escada rolante para chegar ao mezanino, depois descer a outra escada e atingir a rua.
            Ele estava lá, encostado na parede ao lado da escadaria. Parecia estar me esperando. Olhou-me fixamente. Desviei o olhar e comecei a caminhar bem rápido. Em três quarteirões chegaria ao prédio onde moro.
            Resolvi olhar de esguelha para trás e ele vinha me acompanhando, desengonçado, tentando me alcançar nos meus passos acelerados.
            Comecei a me preocupar. Reduzi a velocidade da marcha e ele quase me alcançou. Manteve um metro de distância de mim, até que cheguei ao prédio.
            Entrei pelo portão de pedestre, ele acelerou, passando rente a mim. Fui até ao elevador que estava vazio e ele não me deu tempo para deixá-lo para trás. Entrou comigo.
            Comecei a observá-lo melhor. Parecia um menino de uns dez anos,  com um metro e meio de altura, mas o seu rosto revelava mais idade.
            Cabeça desproporcional, sem cabelos, enormes olhos que quase não piscavam. Sua face era diferente: nariz achatado, lábios finos, minúsculos. A pele era azeitonada. Seria pardo, moreno, negro enfim? Não saberia definir a sua etnia.
            Usava uma roupa colante prateada,  como se fosse uma “segunda pele”, daquelas que  as mulheres usam por baixo das roupas de festa ou quando está muito frio.
            Decote fechado, mangas compridas e justas até os punhos, como um macacão de bailarino, comprido até os pés. Calçava alpercatas também de cor cinza.
            Chegamos ao meu andar e cruzei com um vizinho que me cumprimentou sem dar mostras de que tivesse visto meu acompanhante.
            Abri a porta do meu apartamento e antes que eu conseguisse passar, o estranho se esgueirou para dentro da sala.
            Neste momento me dei conta de que só eu o via. Desde que o encontrei na saída do metrô, ninguém olhou ou reparou na minha companhia.
            Tentei me comunicar: “De onde você vem”?
            Ele nem piscou, nem me respondeu.
            “Quem é você e por que me acompanhou”? Nada de resposta.
            Os seus grandes olhos escuros me fitavam insistentes.
            Pensei: “O que faço”? Tentei colocá-lo para fora, mas foi inútil. Ele ficou em pé ao lado da porta e não atendeu as minhas ordens.
            Tive receio de tocá-lo. Deixei-o ali no canto e comecei a fazer as minhas atividades rotineiras: um banho, uma troca de roupa, um jantar de congelado preparado no micro-ondas.
            Sentei-me no sofá, liguei a TV e ele lá em pé no mesmo lugar, me olhando.
            Ofereci-lhe comida, pedi que se sentasse e nada! Resolvi ignorá-lo, apesar do medo.
            Retomei algumas atividades: lavar a louça, limpar a pia e o banheiro, colocar a roupa na lavadora e depois na secadora.
            Estava exausto e a emoção do encontro me consumia.
            Disse-lhe: “Vou dormir. Você pode ficar no sofá e descansar. Toma essa manta e use-a se sentir frio”.
            Fui para o quarto. Ele me acompanhou, mas consegui entrar e trancar a porta antes que entrasse também.
            Que noite horrível! Um sono entrecortado com sonhos psicodélicos, cheios de luzes, raios e seres de outros planetas. Um pesadelo sem fim.
            Afinal, o amanhecer.
            Levantei-me, abri a porta. Ele continuava de pé ao lado do quarto. Não parecia ter descansado.
            Rotinas matinais: a higiene pessoal, o café da manhã, folhear o jornal rapidamente, que tinha sido colocado à porta, do lado de fora, pelo porteiro do prédio.
            Nenhuma notícia sobre seres intergaláticos.
            Eu continuava sob a vigilância do misterioso e indesejado companheiro.
            Saí para o trabalho, ele atrás de mim. Ficou no mesmo lugar ao pé da mesma escada do metrô  do dia anterior.
            As pessoas passavam por mim e não viam nada diferente. Só eu o via.
            Já era terça-feira e a situação se repetiu da mesma forma, até a sexta-feira à noite.
            Ele não se comunicava, não comia, não se deitava ou sentava, e aparentemente, não dormia.
            Tudo muito estranho!
            Eu não quis falar sobre ele com ninguém. Temia que me julgassem estar com distúrbios psicológicos.
            Amanheceu o sábado. Abri a porta do quarto. O susto!
            Ao lado da porta uma mancha marrom do contorno de um corpo caído no chão. Parecia ter sido incinerado. Procurei-o pelo apartamento e não o encontrei.
            Procurei limpar o chão com aspirador de pó, vassoura, produto de limpeza vigorosamente esfregado. Tentei raspar aquela mancha com uma pá, sem sucesso.
            Tomei uma talhadeira e um martelo e procurei furar a madeira do piso. A marca do corpo estava entranhada no lugar, até a  uns cinco centímetros .
            O que fazer?
            Pensei: “Vou visitar a minha mãe que há uns dias não vejo. Dou uma desculpa e fico com ela por uns tempos”.
            Eu queria era sair o quanto antes daquele lugar.
            Arrumei umas malas apressadamente com roupas e objetos de uso pessoal. Avisei o porteiro que iria ficar fora alguns dias. Pedi-lhe que guardasse a minha correspondência.
            Minha mãe ficou feliz em me ver e mais feliz ainda, quando lhe disse que iria ficar com ela uns quinze dias porque estava cansado de viver sozinho.
            Passaram-se os dias e eu tinha que retomar minha vida, mas como? Não tinha coragem de voltar ao meu apartamento.
            Chamei uns homens para retirar a mobília que doei para uma instituição de caridade, assim como o resto da roupa que eu havia deixado lá.
            Com o apartamento vazio, mandei fazer uma reforma que incluiu a pintura e a colocação de um carpete sobre o piso da sala, cobrindo a mancha inexplicável.
            Aos curiosos, disse que tinha sido uma brincadeira dos sobrinhos.
            Coloquei o imóvel à venda e nunca mais retornei lá.
            Continuei a morar com a minha mãe que ficou toda contente com a companhia.
            Mudei de estação de metrô, pois a casa da minha mãe é distante do meu antigo endereço.
            Já faz um ano que não vejo o estranho. Não sei quem ele era, o que queria e porque me assediou.
             Mas que era um ser de outro planeta, tenho certeza!
            Não falei sobre isso com nenhuma pessoa, mas em muitas noites sou assombrado pela sua lembrança.
            Tenho pesadelos e durmo mal. Deveria buscar ajuda profissional ou religiosa?

            Não pretendo me expor e não quero mais nem pensar nisso, mas sim, tentar esquecer o que vivi.

sexta-feira, 9 de junho de 2017

Oficina Minha Memória

Oficina Minha Memória • Apresentação Minha origem Não nasci em São Paulo. Mas vim com três meses para cá. Minha infância desenvolveu-se com a história do Bairro de Vila Formosa, onde fui morar em 1945. Cresci com o bairro. Morava com meus pais e uma irmã. Bem mais tarde, tivemos um irmão. Os contatos com os parentes eram poucos: um casal de tios que morou um tempo conosco e depois voltou para o Rio de Janeiro. Havia uma tia que nos visitava de vez em quando e era uma delícia! Havia ainda um primo que nos visitava e foi quem me deu os meus primeiros livros. Não conheci, nem convivi com nenhum dos quatro avós, nem nenhum idoso. Meus avós faleceram antes do casamento dos meus pais. Cresci ao redor da igreja. No começo era a “Igrejinha Velha”, adaptada, na atual praça Dr. Sampaio Vidal, até 1948. Depois inaugurou-se o grande Santuário, na confluência das avenidas Renata, Dr. Eduardo Cocthing e João XXIII. Nos porões do Santuário foi instalado em 1949, o Externato Nª Sª do Sagrado Coração, onde entrei no 4º ano primário e saí formada professora. Nas minhas primeiras séries não havia escolas no bairro. Frequentei a 1ª série num salão adaptado perto da igrejinha velha. As 2ª e 3ª séries foram num outro bairro distante, e tínhamos que andar muito ao lado dos córregos, então limpos e bela vegetação. Íamos num grupo de crianças, alegremente, até à escola, que era também adaptada numa casa. Meus amiguinhos e amiguinhas eram da vizinhança, da escola e da igreja e participávamos de muitas brincadeiras, passeios, romarias, organizados pela escola e igreja. Uma beleza! Comidas e Receitas da Infância Os sabores da minha infância são inesquecíveis! Havia o gostoso café com leite, e o pão com manteiga, na casa da patroa da mãe. Os almoços e jantares na nossa casa, eram a comida trivial: O arroz levemente avermelhado com colorau, costume da minha mão, vinda do Rio de Janeiro. O feijão cozido lentamente no fogão a carvão, num caldeirãozinho próprio, e que ficava a manhã toda no fogo. Os frangos criados no quintal e abatidos pela mãe, eram feitos ensopados. Às vezes, eram ao molho pardo. Depois de cozidos, juntava-se o sangue que tinha sido colocado numa xícara com vinagre para não coagular. Esse sangue era recolhido na hora em que se matava com uma faca, cortando o pescoço da ave. O cozido ficava com uma cor escura. Não se percebia o gosto do sangue, e para nós era uma delícia! As comidas eram sempre feitas no próprio dia, pois não havia geladeira para conservação. Aliás, não havia nem mesmo a eletricidade no bairro… As saladas eram de chuchu cozido ou almeirão picado bem fininho, e que eram do próprio quintal. Havia às vezes, o jiló, o quiabo, as flores de abóbora fritas à milanesa, e que minha mãe chamava de “quibebe”. Aprendemos a apreciar muitos sabores. As sobremesas eram frutas do quintal: bananas, laranjas, jabuticabas, carambola, maracujá. Do maracujá e dos limões se fazia também os sucos. Dos limões eram feitas balas com açúcar caramelizado. As maçãs eram esporádicas e compradas só em caso de uma doença infantil. Um privilégio! Havia os doces deliciosos feitos em casa: Doce de pêssego Colhidos no quintal, eram limpos numa breve fervura com água e cinza do próprio carvão, e assim sua pele era facilmente retirada. Depois eram imersos numa calda rala temperada com cravo da Índia e canela em pau, Era só esperar esfriar e tomar cuidado com o caroço… Doce de tomate Era um doce com receita antiga de família e trazida do Rio de Janeiro. A receita era a seguinte: - 1kg de tomates maduros. Fazer um breve corte em cruz no fundo (lado oposto ao cabinho). Passar na água fervente e retirar a pele. e as sementes com cuidado. Fazer uma calda em ponto de fio e colocar os tomates um a um, sem mexer. Nessa calda acrescentar também cravo da Índia e canela em pau. Deixar cozinhar brevemente os tomates. Depois de frios, colocá-los numa compoteira. Servir com queijo de Minas. Assim fui fartamente alimentada na minha infância, com produtos simples, livres de qualquer agrotóxico ou hormônios atuais, para a produção de alimento em grande escala. Façam o doce de tomate. Vocês vão gostar! Bom apetite! Cantigas de roda Quando eu era criança, brincava de roda com as amiguinhas e cantávamos muitas cantigas. Essas músicas ficaram na lembrança e quando nos recordamos delas, sentimos a volta no tempo e nos bate uma saudade gostosa. Lembraremos aqui algumas delas: Senhora Dona Sancha Senhora Dona Sancha, coberta de ouro e prata, Descubra seu rosto, queremos ver sua cara. Que anjos são esses que andam rodeando de noite e de dia, Padre Nosso e Ave Maria. Somos filhos do conde e netos do visconde. Seu rei mandou dizer para todos se “esconder”. Ciranda cirandinha Ciranda cirandinha, vamos todos cirandar, Vamos dar a meia volta, volta e meia vamos dar. O anel que tu me deste era vidro e se quebrou, O amor que tu me tinhas, era pouco e se acabou. Por isso dona…… faz favor de entrar na roda, Diga um verso bem bonito, diga adeus e vá embora. As brincadeiras de roda eram na rua, geralmente à noite. Se fosse noite de lua cheia, melhor ainda! As ruas do meu bairro eram de terra e meio arenosas. Havia pedaços de “malacacheta” que brilhavam à luz do luar. Que beleza! Os adultos se reuniam para conversar e as crianças ficavam o tempo todo nas brincadeiras, até que alguém dizia que já era hora de ir para a cama. Não se passava muito das vinte e uma horas… E assim se brincava nos anos 40 - 50, como nossos filhos e netos jamais o fizeram. Que pena! Brincadeiras infantis Eu brincava no enorme quintal de casa ou na rua sossegada. Depois das aulas, juntavam-se as vizinhas e íamos brincar. Pular corda A criança mesma manejava a corda com as duas mãos e pulava sozinha. Duas crianças manejavam a corda e as outras em fila, aguardavam a vez de “entrar”.Quando entrava, pulava, contando até errar e saía da corda para outra entrar. Duas crianças manejavam duas cordas em movimentos alternados. Uma da fila “entrava” e pulava alternadamente as cordas, contando até errar, para sair e outra criança entrar. Ganhava quem conseguia ficar mais tempo nas cordas. Era muito difícil. Nunca consegui. Só pulava sozinha. Balanço O pai fazia um balanço de corda amarrado a uma árvore, com um assento de madeira caprichado para o conforto de criança. Ela se segurava com as duas mãos nas laterais da corda e outra “empurrava”, dando o impulso para início da brincadeira. A própria criança podia se impulsionar, colocando os pés no chão e se jogando para a frente, iniciando assim o balancear. Ia-se cada vez mais alto e mais rápido. Era um perigo! Muitas vezes se caía no chão, batendo a cabeça e o corpo. Nunca ninguém se machucou seriamente, a não ser por tonturas passageiras e joelhos ralados… As crianças se revezavam no balanço, depois de uma certa contagem. Brincadeira de casinha Juntavam-se as bonecas das meninas, suas panelinhas, pratinhos, fogõezinhos de lata e se fazia comida “de mentirinha” com folhas ou frutinhas do mato ao redor. Fingia-se que comia. Fingia-se também que se lavavam as bonecas, de pano ou celulóide. Só as crianças ricas tinha bonecas de louça com lindos olhos azuis que se abriam e fechavam e essas bonecas falavam “mamãe” quando eram levemente manejadas. Era a brincadeira do “faz de conta”. Brincava-se também de batizados das bonecas, onde as meninas lhes davam nomes escolhidos com carinho e chamavam uma amiga para madrinha. As mães colaboravam com a limonada e um bolo simples. Eram brincadeiras que só aconteciam com as bonecas novas. Brincadeira de roda Ciranda cirandinha: Cantava-se a música, de mãos dadas, numa roda. Na última estrofe alguém era chamado ao centro da roda para dizer um verso e sair. Voltava-se a cantar e rodar, até chamar outra criança e assim sucessivamente. Senhora Dona Sancha: Cantando a música, de mãos dadas, em roda. No centro ficava a “Dona Sancha” agachada e com os olhos vendados. No fim da música as crianças se dispersavam e a Dona Sancha tinha que pegar uma delas que ficava, então no centro da roda, reiniciando-se a brincadeira. Brincadeira de “Pique” Uma das crianças era escolhida para “bater cara” - ficar com o rosto encostado na parede -com os olhos fechados. Ela contava de 1 a 20, por exemplo, enquanto as outras se escondiam. Quando terminava de contar, gritava “já” e saía à procura dos amiguinhos. O primeiro que encontrava tinha que correr até o pique e bater a mão na parede. Se fosse pego, era o próximo a “bater cara”. Se não, outro que fosse pego ia para o pique para a brincadeira recomeçar. “Causos” de família Minha mãe sempre nos contava os “causos de família. Meus pais namoraram por oito anos, o que não era comum nos anos trinta. Casaram-se em 1938. Meu pai era um homem bonito e namorador. Ao mesmo tempo que minha mãe, tinha também outra namorada. Depois da visita à primeira, ele dizia:”Agora vou ver a Marieta”.Minha mãe, com binóculos, via os dois juntos, ele deitado no colo da outra… Um dia, minha mãe deu a ele uma bela foto sua. Era também uma mulher bonita. Ele a mostrou para a Marieta que a amarrotou todinha! Meu pai devolveu a foto amassada para a minha mãe, mostrando-lhe uma foto da outra. Por vingança, minha mãe passou essa foto da Marieta na máquina de costura, picotando-a completamente com a agulha, numa espécie de vodu… Bem. A foto amassada, minha irmã e eu tivemos de volta numa visita a uma das primas no Rio de Janeiro, em 1994. Estava entre outras fotos da família na casa da minha tia, e que olhávamos numa gostosa sessão nostalgia. Quando se casaram, meu pai tinha 28 e minha mãe, 26 anos. Eles sempre diziam que não alcançariam netos, por terem se casado tarde. Conheceram os cinco netos, e ele, duas bisnetas. E esses “causos”, minha irmã e eu contamos também aos nossos filhos e netos. Ditos populares: Os meus pais tinham sempre um dito popular ou provérbio que se encaixava em cada situação apresentada. Lembro-me de alguns deles: 1- "Papagaio come milho. Periquito leva a fama." Quando alguém fazia algo errado e insinuava que a culpa era de outra pessoa. 2- "Tanto o jarro vai à fonte, que um dia quebra." Se nos expomos ao perigo muitas vezes, corremos o risco de nos machucar. 3- "Quem ama o feio, bonito lhe parece". A beleza é relativa. Está nos olhos de quem vê... 4- "Amor com amor, se paga". Se você é gentil e educado, receberá o mesmo tratamento em retribuição. 5 -"Ande com os bons, e serás um deles". Devemos sempre procurar as boas companhias das pessoas que possam nos fazer melhorar. 6- "De médico e louco, todo mundo tem um pouco." Justificando as conversas das comadres, que sempre tinham uma receita infalível de um remédio perfeito para qualquer problema de saúde. 7- "O bom filho, à casa torna". Será mesmo que o bom filho irá retornar? Na parábola de Jesus,do Filho Pródigo, é esse que retorna. O bom filho não saiu de casa... 8- "De grão em grão, a galinha enche o papo". Valorizando o trabalho humilde e constante para se conseguir as melhores coisas. 9- "Devagar se vai ao longe". Mais ou menos o mesmo sentido do anterior. 10- "Alegria do palhaço é ver o circo pegar fogo". Pode ter o sentido de que foi um sucesso, ou, ser aquele que não se compromete com o que faz e não se importa se tudo der errado. 11- "Filho criado, trabalho dobrado". Uma nostalgia dos tempos dos filhos pequenos, em que os pais podiam controlá-los e que depois de crescidos ou adultos, resolvem seus problemas por si mesmos. Às vezes até podem voltar aos pais, quando estão em perigo, para pedir ajuda... Alguns ditos eram "politicamente incorretos" para os dias de hoje, como: "Os erros do médico, a terra os cobre". Significando que depois que o paciente morreu, nada há mais a fazer, sem se saber se o médico agiu mesmo de forma acertada. E, assim, ouvindo-se repetidamente esses ditos populares nas ocasiões oportunas, e observados os exemplos de vida de nossos pais, conseguimos moldar nossa personalidade para o bem. Autor: Nazareth Peres